Nem toda medicação é terapêutica
- Kauê da Costa Alves
- há 2 dias
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É muito comum falarmos sobre a importância do acompanhamento psiquiátrico articulado ao trabalho psicoterapêutico. Assim como nós, profissionais da Psicologia, precisamos realizar os devidos encaminhamentos quando necessário, nossos colegas psiquiatras também costumam indicar essa parceria. Trata-se, idealmente, de um trabalho conjunto, ético e responsável.
No entanto, tem se tornado cada vez mais evidente uma certa banalização do uso medicamentoso.
Não é raro, nos nossos ciclos de amizade, no ambiente de trabalho ou em conversas informais, ouvirmos frases como: “preciso tomar um remedinho”, “um Rivotril”, “uma Ritalina para aguentar o dia”, “para conseguir trabalhar”, “para estudar”.
Essas falas circulam com naturalidade. Quase não nos causam mais estranhamento.
Na banca de defesa do meu mestrado, um dos membros, Rinaldo Voltolini, fez um comentário que considero precioso. Embora meu trabalho discutisse infância e inclusão escolar, um dos temas que atravessava a pesquisa era justamente o processo de medicalização da vida.
Ele comentou sobre o uso cada vez mais normalizado e crescente da Ritalina diante do estresse no trabalho ou de outras circunstâncias da vida. Em alguns casos, o médico indica seu uso apenas durante a semana, podendo o paciente suspender aos finais de semana. E fez, então, uma comparação bastante elucidativa com medicamentos utilizados para hipertensão, diabetes e outras condições crônicas.
Um paciente hipertenso não pode se dar ao luxo de interromper a medicação no final de semana. Trata-se de um uso contínuo, porque, sem ela, ele pode sofrer consequências severas para a sua saúde. Estamos, nesse caso, diante de uma medicação propriamente terapêutica. Quando nos voltamos, porém, para certas medicações psiquiátricas indicadas nesses moldes, uso apenas durante a semana, algo nos chama a atenção.
Nesses casos, a medicação não parece estar orientada por um fim primariamente terapêutico, mas produtivo. Não se trata apenas de tratar um sofrimento em sua dimensão clínica, mas de assegurar desempenho. De fazer com que a pessoa volte a produzir.
Ela não pode parar. Precisa estar medicada para sustentar o cotidiano, mesmo que o ambiente, os colegas ou as próprias condições de trabalho sejam adoecedoras.
Muitas vezes, não estamos falando de uma desordem de cunho endógena. Estamos falando de sujeitos atravessados por dinâmicas extenuantes, metas irreais, relações opressivas. E, em vez de interrogarmos essas dinâmicas, deslocamos a responsabilidade para o indivíduo.
Cada vez mais temos privilegiado ambientes adoecedores, trabalhos desumanos e metas inatingíveis, em detrimento de uma análise crítica das estruturas que produzem sofrimento. Medicaliza-se para apagar o mal-estar presente nas relações de nossa sociedade.



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