A solidão na era da conexão: por que nunca estivemos tão sós?
- Kauê da Costa Alves
- há 3 horas
- 2 min de leitura
Por que, num mundo em que nunca estivemos tão conectados, tanta gente se sente tão sozinha?
Uma reportagem recente do G1 coloca em destaque a solidão moderna e seus efeitos nocivos sobre a saúde mental, especialmente entre os jovens. O dado chama atenção, mas talvez o mais inquietante não seja o número em si, e sim o paradoxo que ele revela.
Vivemos na era da hiperconectividade. Estamos a um clique de qualquer pessoa, de qualquer assunto, de qualquer imagem. Ainda assim, cresce a sensação de isolamento, vazio e desconexão. O que está acontecendo?
Freud já nos ajudava a pensar que a solidão não começa na vida adulta. Existe uma solidão primordial, uma condição estrutural do ser humano ao vir ao mundo. Desde o início da vida, o bebê se encontra em uma situação de absoluto desamparo. Ele depende radicalmente de um outro para sobreviver.
Essa condição nos aponta para duas dimensões fundamentais.
A primeira é que há uma solidão própria da existência. Algo que não pode ser eliminado, resolvido ou completamente preenchido. Todos nós, em alguma medida, teremos que nos confrontar com esse núcleo de desamparo.
A segunda é que, apesar disso, somos seres de relação. Precisamos de um outro que nos acolha, que nos reconheça, que nos ofereça um lugar simbólico de existência. Não se trata apenas de companhia física, mas de laço. De sermos vistos, nomeados, incluídos no campo do desejo do outro.
O que a reportagem evidencia é um impasse muito particular do nosso tempo: a dificuldade crescente de nos enlaçarmos verdadeiramente uns com os outros. E não é curioso que, justamente no mundo em que mais estamos conectados, também seja o mundo em que mais nos isolamos?
Talvez porque conectividade não seja sinônimo de vínculo.
A conexão virtual não garante, necessariamente, uma conexão subjetiva. As relações passam a se organizar de modo cada vez mais narcísico e autocentrado. O algoritmo nos oferece aquilo que já gostamos, aquilo com o que nos identificamos, aquilo que confirma nossas crenças e preferências. Somos constantemente devolvidos a nós mesmos.
Pouco a pouco, a diferença é filtrada. O conflito é evitado. O encontro real com o outro, aquele que nos desestabiliza, que nos confronta com o que não somos, vai sendo neutralizado.
Mas é justamente no encontro com a alteridade que o laço se constrói.
Talvez o problema da solidão contemporânea não seja a falta de pessoas ao redor, mas a ausência de laço. Podemos estar cercados de contatos, seguidores, mensagens e notificações e, ainda assim, não nos sentirmos reconhecidos em nossa singularidade.
Sem o outro real, o desamparo não encontra sustentação. E quando o desamparo não encontra quem o acolha, a solidão estrutural, que faz parte da condição humana, pode se transformar em isolamento.
A questão que fica não é como eliminar a solidão, mas como criar espaços onde o laço seja possível. Onde a diferença possa existir. Onde o encontro não seja apenas consumo de imagens, mas experiência de alteridade.




Comentários