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"Deixem as mulheres amarem à vontade. Não as matem, pelo amor de Deus!"

  • Foto do escritor: Kauê da Costa Alves
    Kauê da Costa Alves
  • há 4 dias
  • 2 min de leitura

Recentemente me deparei com essa frase em uma crônica de Lima Barreto, escrita em 1915. Ela me chamou atenção por sua impressionante atualidade e pela coragem de ter sido escrita em uma época em que ser mulher era ainda mais arriscado.


Na crônica, Lima Barreto, relata alguns casos, noticiados na época, de homens que assassinaram suas ex-companheiras, denunciando a violência contra as mulheres e o sentimento de domínio que muitos homens acreditam possuir sobre seus corpos, seus direitos e, sobretudo, o seu desejo.



Recentemente, presenciamos a notícia de um homem que assassinou sua namorada, no Shopping Golden Square, em São Bernardo do Campo, enquanto ela trabalhava, e depois tirou a própria vida. Histórias como essa aparecem com uma frequência assustadora.


Enquanto homens precisam lidar com o luto de uma separação, quando relações amorosas terminam, mulheres, muitas vezes, precisam lidar com o risco de serem mortas. Isso porque estamos diante de uma estrutura histórica de poder. Durante muito tempo, a cultura construiu a ideia de que a mulher deveria existir como extensão do desejo masculino, como esposa, como propriedade, como objeto de amor, mas raramente como sujeito de seu próprio desejo.


Quando uma mulher rompe com esse lugar, quando decide desejar algo que não passa pelo homem, isso ainda é vivido por muitos como algo intolerável. Não é por acaso que, em diferentes lugares do mundo, vemos crescer movimentos de ressentimento masculino e de ódio às mulheres.


No consultório, atendendo mulheres, é muito nítido como o sofrimento feminino frequentemente aparece ligado à dificuldade de acessar o próprio desejo. Como se houvesse sempre uma culpa, um limite, uma interdição sobre aquilo que podem querer para si. Já escutando homens, muitas vezes o sofrimento aparece na dificuldade de lidarem com a liberdade que lhes foi dada e com o fato de que o desejo do outro, especialmente o desejo de uma mulher, não pode ser controlado.


Talvez por isso a frase de Lima Barreto continue sendo tão necessária mais de cem anos depois.


“Deixem as mulheres amarem à vontade.”


Deixem que desejem à vontade. Deixem que vivam à vontade. Deixem que escolham à vontade.


Deixem que gozem do direito de existir como sujeitos de suas próprias vidas.

Seja como mães. Seja como profissionais. Seja como artistas. Ou simplesmente como quiserem ser.

 
 
 

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